dezembro 14, 2014

"Lago Tanganika"
Vale a pena não colocar todos os ovos (ou prole) no mesmo ninho?

Copyright © Stefanie Schwamberger
Os ciclídeos do Lago Tanganika (África) "permutam" suas crias com outros pais para reduzir as chances de que toda a sua ninhada seja comida por predadores.
Neolamprologus caudopunctatus é uma espécie de ciclídeo monogâmica e os casais constroem grutas de nidificação para proteger seus ovos e filhotes de predadores. Num mergulho de 12 metros direto para o fundo do lago, os cientistas coletaram amostras de DNA de cerca de 350 casais e proles de mais de 30 ninhos. Técnicas genéticas sofisticadas foram então aplicadas para investigar a paternidade da prole em ninhos individuais e, na maioria dos ninhos foram encontrados alevinos com cargas genéticas diferentes ao casal de "pais" relacionado e ainda alguns ninhos contendo alevinos provenientes de vários casais.
Como o local dos ninhos já eram conhecidos, os cientistas foram capazes de mostrar que as larvas tinham nascido em ninhos que foram separados e colocados em ninhos adotivos de menos de um metro a até mais de 40 metros dos ninhos dos pais verdadeiros. Apesar de muitas espécies de pequenos porte serem capazes de nadar vários metros para uma nova gruta (ou refúgio) sem serem comidos, é pouco provável que eles (filhotes) possam viajar grandes distâncias. Sendo mais provável que os mesmos tenham sido levados aos "novos" ninhos dentro da boca de seus pais.
Transportar os alevinos para ninhos relativamente distantes seria garantir que alguns jovens fossem protegidos, mesmo se todos os ninhos na vizinhança fossem predados ou destruídos imediatamente, por isso é fácil entender por que os pais fazem isso. Mas por que outros casais estariam dispostos a adotar uma prole que não tenham relação com eles?
Franziska Schaedelin do Instituto Konrad Lorenz da Universidade de Medicina Veterinária de Viena,  sugere que os pais adotivos podem aceitar proles alheias como uma forma de diluir a predação de seus próprios filhotes. Se assim for, os pais adotivos devem adotar filhotes menores do que sua própria cria, já que provavelmente os menores seriam predados primeiro.
Os pesquisadores demonstraram também que as proles adotadas eram do mesmo tamanho que a prole pertencente àquele ninho, embora ligeiramente maiores que os filhotes que não foram oferecidos para adoção. Parece que os pais permitem "seletivamente" filhotes alheios em suas próprias ninhadas e disponibilizam seus alevinos para adoção por outros casais.
Compartilhar o cuidado das ninhadas entre diferentes famílias representa uma espécie de "apólice de seguro" contra a predação dos ninhos. Schaedelin sintetiza: "em uma espécie que é tão altamente predada, que deve ter sido importante desenvolver uma estratégia para garantir que pelo menos alguns dos jovens sobreviva. Ao que tudo indica os peixes usam isso como estratégia para não colocar todos os seus ovos (no caso alevinos) em um único ninho. 

O paper "Nonrandom Brood Mixing Suggests Adoption in a Colonial Cichlid" dos autores Franziska C. Schaedelin, Wouter F.D. van Dongen & Richard H. Wagner foi publicado na revista "Behavioral Ecology".

dezembro 09, 2014

Wanted: Female Mangarahara Cichlid

Procura-se uma namorada!!!  
Wanted: Female to save critically endangered cichlid  

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Aquaristas da Sociedade de Zoológicos de Londres (ZSL, sigla em inglês para Zoological Society of London) do London Zoo lançaram um apelo urgente mundial para encontrar uma companheira para os últimos machos remanescentes de uma espécie de ciclídeos de Madagascar criticamente ameaçada de extinção.

O ciclídeo de Mangarahara da espécie Ptychochromis insolitus, acredita estar extinta na natureza, devido à construção de barragens que secou seu habitat no rio Mangarahara em Madagascar, e dois dos últimos exemplares conhecidos estão residindo hoje no Aquário do London Zoo .

E, como se a situação não fosse trágica o suficiente para a espécie, os dois indivíduos que habitam o Aquário do London Zoo (ZSL) ambos são, infelizmente, machos.

O curador do aquário do London Zoo (ZSL), Brian Zimmerman, juntamente com os colegas do zoológico de Zurique - Suíça estão empenhados na busca por outros ciclídeos de Mangaraharan em zoológicos pelo mundo - usando as associações de zoológicos internacionais e de aquários para atingir o maior número de especialistas e aquaristas possível , por enquanto não tiveram sorte na busca por fêmeas sobreviventes.
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Macho de Ptychochromis insolitus (London Zoo).

A equipe do aquário do Zoo London (ZSL) iniciou uma campanha desesperada direcionada aos proprietários de aquário privados, de peixes, colecionadores e entusiastas para que divulguem se eles têm ou sabem de alguma fêmea existente, de modo que um programa vital de melhoramento e conservação da espécie possa ser iniciado.

Lançando um apelo, Brian Zimmerman do Zoo Londres disse: "A situação do ciclídeo de Mangarahara é chocante e devastadora em vias de extinção, o seu habitat selvagem não existe mais e, tanto quanto podemos dizer, apenas três machos desta espécie permanecem vivos."

Fêmea de Ptychochromis insolitus do Zoo Berlim.
"Pode ser tarde demais para seus parentes selvagens, mas se podemos encontrar uma fêmea, não é tarde demais para a espécie. Aqui no ZSL London Zoo temos dois machos saudáveis​​, bem como as instalações e conhecimentos para fazer uma diferença real."

"Estamos fazendo um apelo urgente para chamar a atenção para quem possui ou conhece alguém que tenha algum exemplar dessa espécie criticamente em perigo, que são na cor prata, com a extremidade das nadadeiras de cor laranja, para que possamos iniciar um programa de melhoramento aqui no Zoo de trazê-los de volta da beira da extinção." A ZSL London Zoo está pedindo que qualquer pessoa com informações sobre os ciclídeos entre em contato com a equipe através do e-mail (fishappeal@zsl.org).

Mangarahara e a Sociedade Zoológica de Londres
Conservacionistas da Sociedade Zoológica de Londres, liderada por Brian Zimmerman, realizará uma expedição de emergência para Madagascar para determinar exatamente qual a situação do ciclídeo Mangarahara em estado selvagem.
Dois exemplares remanescentes  de Ptychochromis 
insolitus no ZSL
Atualmente classificada como criticamente ameaçada pela IUCN, a espécie é considerada pelos especialistas como extinta na natureza desde a construção da barragem que secou o rio que era seu o habitat natural.
A Sociedade Zoológica de Londres (ZSL) fundada em 1826, é uma organização internacional científica de conservação e educação cuja missão é promover e realizar a conservação mundial de animais e seus habitats.
Sua missão é realizada por meio da ciência inovadora, projetos de conservação ativos em mais de 50 países e dois zoológicos, o Zoo de Londes e o de Whipsnade. 


União Internacional para a Conservação da Natureza (sigla em inglês - IUCN)
A União Internacional para a Conservação da Natureza é a maior e mais antiga organização ambiental fundada em 1948 como a primeira organização ambiental global do mundo.
Atualmente é a maior rede mundial de conservação profissional e uma das maiores autoridades sobre o meio ambiente e desenvolvimento sustentável, com mais de 1.200 organizações membros, incluindo mais de 200 governo e mais de 900 ONG's.
A sede da União está localizada em Gland, perto de Genebra (Suíça). O trabalho da IUCN é realizado com o auxílio de aproximadamente 1.000 funcionários em 45 escritórios, além de centenas de parceiros público, do setor privado e ONG's por todo o mundo.

dezembro 05, 2014

         Amphilophus hogaboomorum

The large male Amphilophus hogaboomorum @ 13″ (33 cm)
O grande macho selvagem de Amphilophus hogaboomorum (33 cm), também conhecido como Guayas ou Harlequim, nativo de Honduras.

Gostaria de gastar mais tempo apenas observando meus peixes. E tenho certeza que não estou sozinho nesse sentimento. Assim começa o relato do autor dessa matéria. A maioria dos apaixonados por aquários (aquariofilistas) concorda que uma boa parte do tempo gasto com seu aquário é na limpeza, alimentação e manutenção do mesmo ... e, claro, as mudanças de água semanais. Tenho dois casais reprodutores de belos peixes Amphilophus. Cada casal está em um aquário de 180 litros. Espaço suficiente para fazerem o que o grupo Cichlidae faz de melhor  ... procriação e cuidado parental.

Uma das coisas mais legais, de longe, é ver o casal orientar seus alevinos a se esconder para trás do aquário. Ontem à noite, enquanto eu estava observando um dos casais, notei que sua prole (alevinos) tinham conseguido dividir-se ao meio sendo cada metade para um lado do aquário. Então eu rapidamente me posicionei trás do aquário para ver como o casal iria lidar com o dilema. A fêmea é sempre a controladora (age), se deslocando frequentemente entre os dois grupos de alevinos. O macho também participa, ao menos tenta ... a fêmea parece mantê-lo em movimento, com severas investidas em suas nadadeiras.

Durante minha observação, a fêmea nadava em direção a um dos grupos de alevinos, eriçava e trepidava suas nadadeiras e, então nadava de volta para o outro lado do aquário. Muito lentamente os alevinos se deslocaram para o outro lado do aquário. O macho permaneceu junto ao maior grupo, a fêmea sempre o alertando por meio de pequenos "toques" na base da nadadeira como uma espécie de "alfinetada" para mantê-lo alerta (eu acho). Foi muito interessante observar a dinâmica entre os dois e sua prole.

Female Amphilophus hogaboomorum keeping watch over the fry.
Fêmea de Amphilophus hogaboomorum vigiando sua prole.
The male keeping an eye on one half of the fry while the female got busy rounding up the stragglers.
O macho de olho em uma metade do grupo de alevinos enquanto a fêmea se ocupa reunindo os retardatários.

The female rounding up the fry on the other side of the tank.
A fêmea reunindo a prole do outro lado do aquário.

Imagine having to worry about ALL of these “kids” at one time. No wonder cichlids are expert parents.
Imagine ter que se preocupar com TODAS estas "crianças" de uma só vez. Não é à toa que os ciclídeos são pais exemplares.

Both male and female Amphilophus hogaboomorum with the entire group under their watchful eye.
Ambos macho e fêmea de Amphilophus hogaboomorum com toda a prole sob o olhar atento.


- Mo Devlin (autor do relato "Today in the Fishroom"): Gosta de aquariofilia desde que era criança. O amor pela fotografia se encaixou muito bem ao hobby. Ao longo dos anos tornou-se mais de uma obsessão do que um hobby. Ele é proprietário da Aquamojo.
Meio Ambiente: Aquicultura e o futuro dos frutos do mar
Por Sarah Marshall, University of South Florida


Estima-se que fazendas de frutos do mar tornaram-se um tema bastante controverso ao longo dos anos, com os interesses de muitos do setor de aquicultura afetando a percepção pública.

A controvérsia reside com qualidade, e muitos argumentam que as fazendas produzem peixes com qualidade inferior aos capturados na natureza. A sobrepesca é um assunto evitado nos meios de comunicação, pois os consumidores estão acostumados a ter uma variedade de peixes para escolher. A questão é qual é a linha de produção real das nossas fazendas de frutos do mar? Seria bom pensar que gerações de pescadores que saem todos os dias pescassem apenas o suficiente para manter as populações sustentadas e depois vendessem o seu peixe em suas mercearias locais, infelizmente, este não é o caso.

A piscicultura surgiu por causa do esgotamento de fontes oceânicas pela sobrepesca. A indústria da pesca comercial tem que lidar com muitas questões, tais como, eliminação de resíduos, destruição do habitat, invasões de agentes patogênicos, farinha de peixe e os requisitos do óleo de peixe.

De acordo com um amplo estudo publicado em 2000, "Por causa dos altos níveis de farinha de peixe e óleo de peixe oriundos da alimentação na Aquacultura (Aquaculture Feeds), muitas espécies requerem maior biomassa de peixe como alimento do que o peixe produzido." (Naylor, et al, 2000) Esta é , por definição, extremamente ineficiente. De fato, aproximadamente 18% do que a pesca de captura global retirar do mar é descartado como captura acessória.

Este comportamento equivocado mostra um flagrante e apatia em relação aquilo que o mar tem para oferecer aos seres humanos. O mundo é coberta por 70% de água, e agora temos mais de sete bilhões de pessoas para sustentar, e ainda ignoramos completamente de onde vem nossa comida. Os oceanos tornaram-se tão poluído que nossa comida pode nos envenenar aos poucos. Bioacumulação, também conhecido como ampliação biológica, é um processo pelo qual certas substâncias movem-se para o topo da cadeia alimentar e tornar-se mais concentrada em tecidos ou órgãos internos. Um exemplo clássico é o que está acontecendo com o Mercúrio nos oceanos.

Os consumidores são muito mal informados sobre o conteúdo de suas dietas e precisam estar atentos do que estão comprando. O aumento nas importações de frutos do mar são provenientes de países em desenvolvimento, onde as condições de criação são muitas vezes cruel. Houve relatos de peixes produzidos nos esgotos. Embora este certamente não seja o padrão para as explorações piscícolas, extensos testes devem ser conduzidos em peixes importados, como fungicidas e antibióticos proibidos foram encontrados em uma concentração elevadíssima nos frutos do mar vindo de países em desenvolvimento como China e Vietnã. O problema é, como as importações devem ser testadas? Nos Estados Unidos, a FDA (Food & Drug Administration) a inspeção e os testes são feitos em menos de 1% de todas as importações de frutos do mar realizadas, de acordo com um relatório da ABC News.

A poluição que os seres humanos impuseram sobre o planeta tem permeado em todos os aspectos do nosso sustento. Informar o público pode causar o medo, mas ele deve induzir uma consciência coletiva que nos permite unir e resolver os nossos erros.

Certamente, a culpa não é apenas do consumidor, mas das poderosas indústrias que têm um papel importante em crescer e avançar de modo a não erradicar as espécies que tanto dependem. Sustentabilidade na indústria aquícola começa por "agricultura para baixo da cadeia alimentar" ou os peixes herbívoros em níveis tróficos inferiores. Em seguida, encontrar fontes de proteína alternativas para rações de peixes é necessário para tornar a piscicultura, bem como outros animais, mais eficiente. Em terceiro lugar, a integração de sistemas de policultivo de modo que as diferentes espécies interajam em conjunto, permitindo que os recursos de água e alimentos sejam utilizados com mais eficiência e os efluente reduzidos, são fundamentais.

Existem diversas maneiras de apoiar a piscicultura sustentável ou selvagem. Para mais informações, visite o site da Seafood Watch, onde as informações sobre os tipos de peixe para consumir com base em níveis populacionais estão disponíveis. Nós não podemos resolver um problema na qual não temos conhecimento; consciência é o primeiro passo.

maio 08, 2013





Hidrelétricas podem afetar sistema hidrológico do Pantanal



O projeto de construção de mais 87 Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) na Bacia do Alto Paraguai, em discussão atualmente, pode afetar a conectividade do planalto – onde nasce o rio Paraguai e seus afluentes – e a planície inundada do Pantanal – por onde as águas desses rios escoam –, dificultando o fluxo migratório de peixes e outras espécies aquáticas e semiaquáticas pelo sistema hidrológico. O alerta foi feito por pesquisadores durante o terceiro evento do Ciclo de Conferências 2013 do BIOTA Educação, que teve como tema o Pantanal. O evento foi realizado no dia 18 de abril, na sede da FAPESP.
De acordo com José Sabino, professor da Universidade Anhanguera-Uniderp, o impacto das PCHs já existentes na região da Bacia do Alto Paraguai não são tão grandes porque, em geral, baseiam-se em uma tecnologia denominada “a fio d’água” – que dispensa a necessidade de manter grandes reservatórios de água.
A somatória das cerca de 30 PCHs existentes com as 87 planejadas, no entanto, pode impactar a hidrologia e a conectividade das águas do planalto e da planície da Bacia do Alto Paraguai e dificultar processos migratórios de espécies de peixes do Pantanal, alertou o especialista. “A criação dessas PCHs pode causar a quebra de conectividade hidrológica de populações e de processos migratórios reprodutivos, como a piracema, de algumas espécies de peixes”, disse Sabino.
Durante a piracema, o período de procriação que antecede as chuvas do verão, algumas espécies de peixes, como o curimbatá (Prochilodus lineatus) e o dourado (Salminus brasiliensis), sobem os rios até as nascentes para desovar. Se o acesso às cabeceiras dos rios for interrompido por algum obstáculo, como uma PCH, a piracema pode ser dificultada. “A construção de mais PCHs na região do Pantanal pode ter uma influência sistêmica sobre o canal porque, além de mudar o funcionamento hidrológico, também deve alterar a força da carga de nutrientes carregada pelas águas das nascentes dos rios no planalto que entram na planície pantaneira”, disse Walfrido Moraes Tomas, pesquisador do Centro de Pesquisa Agropecuária do Pantanal (CPAP) da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), no Mato Grosso do Sul, palestrante na conferência na FAPESP.
“Isso também poderá ter impactos nos habitats de espécies aquáticas ou semiaquáticas”, reiterou Tomas. De acordo com o pesquisador, o Pantanal é uma das áreas úmidas mais ricas em espécies do mundo, distribuídas de forma abundante, mas não homogênea, pela planície pantaneira. Alguns dos últimos levantamentos de espécies apontaram que o bioma possui 269 espécies de peixes, 44 de anfíbios, 127 de répteis, 582 de aves e 152 de mamíferos.
São necessários, no entanto, mais inventários de espécies para preencher lacunas críticas de conhecimento sobre outros grupos, como o dos invertebrados – sobre os quais ainda não há levantamento sobre o número de espécies –, além de crustáceos, moluscos e lepidópteros (ordem de insetos que inclui as borboletas), que ainda são pouco conhecidos.
“Uma iniciativa que vai nos dar uma grande contribuição nesse sentido será o programa Biota Mato Grosso do Sul, que começou ser implementado há três anos”, disse Tomas. Inspirado no BIOTA-FAPESP, o programa Biota Mato Grosso do Sul pretende consolidar a infraestrutura de coleções e acervos em museus, herbários, jardins botânicos, zoológicos e bancos de germoplasma do Mato Grosso do Sul para preencher lacunas de conhecimento, taxonômicas e geográficas, sobre a diversidade biológica no estado.
Para atingir esse objetivo, pesquisadores pretendem informatizar os acervos e coleções científicas e estabelecer uma rede de informação em biodiversidade entre todas as instituições envolvidas com a pesquisa e conservação de biodiversidade do Mato Grosso do Sul.
“Começamos agora a fazer os primeiros inventários de espécies de regiões-chave do estado e estamos preparando um volume especial da revista "Biota Neotropica" sobre a biodiversidade de Mato Grosso do Sul, que será um passo fundamental para verificarmos as informações disponíveis sobre a biota do Pantanal e direcionar nossas ações”, disse Tomas. “Diferentemente do Estado de São Paulo, que tem coleções gigantescas, Mato Grosso do Sul não dispõe de grandes coleções para fazermos mapeamentos de diversidade. Por isso, precisaremos ir a campo para fazer os inventários”, explicou.
Segundo Tomas, das espécies de aves ameaçadas, vulneráveis ou em perigo de extinção no Brasil, por exemplo, 188 podem ser encontradas no Pantanal. No entanto, diminuiu muito nos últimos anos a ocorrência de caça de espécies como onça-pintada, onça-parda, ariranha, arara-azul – ave símbolo do Pantanal – e jacaré.
E não há indícios de que a principal atividade econômica da região – a pecuária, que possibilitou a ocupação humana do bioma em um primeiro momento em razão de o ambiente ser uma savana inundada com pastagem renovada todo ano – tenha causado impactos na biota pantaneira. “Pelo que sabemos até agora, nenhuma espécie da fauna do Pantanal foi levada a risco de extinção por causa da pecuária”, afirmou Tomas. Já a pesca – a segunda atividade econômica mais intensiva no Pantanal – pode ter impactos sobre algumas espécies de peixes.
Isso porque a atividade está focalizada em 20 das 270 espécies de peixes do bioma pantaneiro, em razão do tamanho, sabor da carne e pela própria cultura regional. Entre elas, estão o dourado, o curimbatá, a piraputanga (Brycon hilarii), o pacu (Piaractus mesopotamicus) e a cachara (Pseudoplatystoma fasciatum) – um peixe arisco e raro, encontrado apenas em rios como Prata e Olho D’água, que pode chegar a medir 1,20 metro e pesar 40 quilos. “Há indícios de que, pelo fato de a pesca no Pantanal ser direcionada a algumas espécies, a atividade possa reduzir algumas populações de peixes”, disse Sabino.
Além de Sabino e Tomas, o professor Arnildo Pott, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), de Campo Grande, também proferiu palestra, sobre a origem, evolução e diversidade da vegetação do Bioma Pantanal. 
Os pesquisadores também chamaram a atenção para o fato de que, atualmente, apenas cerca de 5% do Pantanal está protegido por unidades de conservação. E que muitas das espécies de animais da região, como a onça-pintada, a ariranha e a arara-azul, por exemplo, não são protegidas efetivamente, porque ficam fora dessas unidades de conservação. “A conservação de espécies ameaçadas no Pantanal requer estratégias mais amplas do que apenas a implantação ou gestão das unidades de conservação”, destacou Tomas. “São necessárias políticas de gestão de bacias hidrográficas e de remuneração por serviços ecossistêmicos para assegurar a conservação de espécies ameaçadas.”
Organizado pelo Programa BIOTA-FAPESP, o Ciclo de Conferências 2013 tem o objetivo de contribuir para o aperfeiçoamento do ensino de ciência. A quarta etapa será no dia 16 de maio, quando o tema será “Bioma Cerrado”. Seguem-se conferências sobre os biomas Caatinga (20 de junho), Mata Atlântica (22 de agosto), Amazônia (19 de setembro), Ambientes Marinhos e Costeiros (24 de outubro) e Biodiversidade em Ambientes Antrópicos – Urbanos e Rurais (21 de novembro). 
Estudo propõe monitoramento dos ecossistemas costeiros marinhos

Pesquisadores de países latino-americanos – incluindo o Brasil – e europeus publicaram um artigo (Global environmental changes: setting priorities for Latin American coastal habitats) na revista "Global Change Biology" no qual dão uma série de recomendações para o desenvolvimento de uma agenda científica e política sobre os impactos das mudanças ambientais e climáticas globais e regionais em ecossistemas costeiros marinhos na América Latina.
De acordo com os autores, na região há uma grande variedade de habitats bentônicos (formados por organismos que vivem nos substratos marinhos), muitos dos quais com grande biodiversidade e prioritários para ações de conservação (hotspots). Entre eles, há enormes camadas de rodolitos (recifes de algas calcárias), além de manguezais, bancos de gramíneas marinhas e recifes de coral no oceano Atlântico Tropical com um grande número de espécies endêmicas.
Esses habitats marinhos são extremamente importantes para os moradores de áreas costeiras da América Latina, que dependem da qualidade ambiental marinha para o desenvolvimento de atividades econômicas como a pesca e o turismo. Segundo os autores do estudo, é preciso protegê-los, principalmente em um momento de rápidas mudanças ambientais e climáticas e ante problemas sociais, como a urbanização descontrolada na região, que se somam a pressões como poluição aquática, sobrepesca e perda ou fragmentação de habitats.
“Há vários grupos que estudam os impactos das mudanças climáticas, em especial no Brasil. Mas isso não ocorre na mesma escala em outros países das Américas do Sul e Central”, disse Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) e primeiro autor do artigo. Turra coordena atualmente a Rede de Monitoramento de Habitats Bentônicos Costeiros (ReBentos), apoiada pela FAPESP.
O objetivo do projeto, lançado no início de 2011, é instituir uma rede integrada de estudos dos habitats bentônicos do litoral brasileiro a fim de detectar efeitos das mudanças ambientais regionais e globais sobre esses organismos e iniciar uma série histórica de dados sobre a biodiversidade bentônica na costa brasileira. “A ideia é estabelecer sítios de monitoramento ao longo da costa brasileira, a serem observados durante muito tempo”, explicou Turra. A rede reúne 120 bentólogos de 14 estados brasileiros, voltados ao estudo dos impactos das mudanças ambientais e climáticas em habitats costeiros marinhos.
Na avaliação de Turra e de outros autores do artigo, a ReBentos e outras redes similares na América Latina, como o Grupo Sul-Americano de Pesquisa de Ecossistemas Costeiros (Sarce), representam iniciativas de monitoramento contínuo de habitats de ecossistemas costeiros marinhos que devem ser replicadas em outros países da região, para preencher lacunas críticas no conhecimento sobre o impacto das mudanças climáticas.
“A aplicação sistemática de protocolos padronizados de monitoramento, adaptados para cada habitat, escala, nível de organização e diferentes condições oceanográficas é essencial para documentar a degradação, fragmentação ou perda de habitats costeiros marinhos”, destacam os autores no artigo. “É preciso espalhar essas ações experimentadas e testadas a outros países da região por meio de projetos locais já em curso e construir uma base de dados com acesso aberto a informações sobre o estado atual e previsões de mudanças em habitats em níveis local, regional e global”, indicam.
Segundo os autores do estudo, os esforços iniciais de monitoramento de habitats costeiros devem ser centrados em locais que já sofrem pressões prejudiciais imediatas, como os recifes de coral do Caribe nos quais se registra o branqueamento (morte dos pólipos responsáveis pela formação do recife), associado ao aquecimento dos oceanos.
Já a acidificação (diminuição do pH e aumento da acidez) dos oceanos não só ameaça degradar as maiores camadas de rodolitos do mundo, existentes na costa brasileira, mas pode reduzir a capacidade de organismos marinhos, como crustáceos, mexilhões e ostras, de produzirem conchas – colocando em risco a aquicultura e a segurança alimentar de comunidades ribeirinhas, salientam os autores.
Os pesquisadores fazem a ressalva, no entanto, de que são necessários estudos para comprovar a associação desses problemas ambientais às mudanças climáticas. “Discutimos essas questões teoricamente, porque ainda não temos muita base do diagnóstico inicial – o chamado baseline – dos ecossistemas marinhos para entender como eles eram e constatar as mudanças pelas quais passam. Por isso, precisamos acompanhar esses organismos por muito tempo”, disse Turra.
Outra preocupação dos especialistas é o impacto de eventos climáticos extremos – que tendem a ser mais frequentes com as mudanças climáticas globais – sobre ecossistemas marinhos (como manguezais) com papéis importantes na proteção da linha de costa, sujeitas ao regime de marés e à energia das ondas.

abril 22, 2013


Peixes japoneses sobrevivem a viagem de 8 mil km em porão de navio arrastado pelo Pacífico após tusunami

REUTERS SEATTLE
 Elaine Porterfield - abril/2013



(Reuters) - Cientistas estão confusos sobre como um grupo de pequenos peixes nativos do Japão sobreviveram a uma viagem pelo Oceano Pacífico em um barco arrastado pelo tsunami de 2011, levado pela maré no mês passado à costa do estado de Washington.
O cardume de peixes bicudo listrado (Oplegnathus fasciatus) - cinco ao todo - foi descoberto submerso no porão de um barco de pesca batizado de Sai-shou-maru, em Long Beach, no sudoeste de Washington.
A embarcação, que estava encalhada, teve sua origem confirmada esta semana e veio da região norte do Japão, devastada pela imensa onda gerada pelo terremoto de Fukushima, em março de 2011.
Outros barcos levados pelo tsunami já foram encontrados ao longo da costa do Pacífico no noroeste dos EUA e no Alasca, assim como pedaços de ancoradouros e grandes quantidades de outros detritos. Mas os peixes encontrados a bordo do Sai-shou-maru são os primeiros vertebrados, até onde se sabe.
Biólogos marinhos que estudam o fenômeno estão intrigados sobre como os peixes bicudo listrado, naturais de águas mais quentes e rasas do sul japonês, acabaram como clandestinos vivos no porão do barco, e como eles suportaram uma viagem de dois anos através do oceano.
"É bastante notável", disse Curt Hart, um porta-voz do Departamento de Ecologia do Estado de Washington, à Reuters. "Todo mundo ficou muito impressionado ao saber que os peixes sobreviveram por dois anos naquele porão." Os peixes foram aparentemente arrastados junto com o barco uma vez que o mesmo foi "levado" da costa do Japão para o Pacífico.
Os cientistas supõem que os peixes fizeram do barco a sua casa durante a maior parte da viagem, uma vez que o barco ficou à deriva de cabeça para baixo e parcialmente submerso, alimentando-se de outros organismos que se incrustaram ou não à embarcação invertida. Outra hipótese seria de os peixes terem ficado presos no porão do barco quando o vento ou ondas emborcou-o, disse Hart.

ALIMENTAÇÃO MISTERIOSA
O meio do oceano Pacífico é muito escasso em nutrientes quando comparamos com as águas costeiras, levantando questões de como os peixes encontraram alimento suficiente para sobreviver durante a viagem, disse Jeff Adams, um especialista da Washington Sea Grant (agência de apoio à investigações marinhas).
Com cerca de 6 centímetros de comprimento o peixe bicudo listrado, assim nomeado por apresentar boca saliente e listras em preto-e-branco ao longo do corpo, foi a mais surpreendente das cerca de 50 espécies de organismos marinhos que pegou carona por todo o Pacífico em um barco. Várias outras espécies de organismos já foram encontrados, entre eles diferentes espéciesde algas, anêmonas, caranguejos, vermes, crustáceos e moluscos marinhos.
Muitas dessas espécies eram consideradas espécies exóticas (não nativas), e todas foram tratadas como potencialmente invasoras - capazes de afastar as espécies nativas, perturbando o equilíbrio ecológico natural, caso escapassem para o meio ambiente e se reproduzissem.
Como medida de precaução, as autoridades estatais rapidamente removeram o Sai-shou-maru da costa americana antes que amostras de organismos fossem coletadas para estudo, e o barco raspado e desinfectado com vapor, Hart disse.
Quatro dos cinco peixinhos encontrados vivos no barco em 22 de março já morreram, e o espécime sobrevivente solitário foi transferido para um aquário em Seaside, Oregon.
O Sai-shou-maru não é a única Arca de Noé japonesa com potenciais espécies invasoras transportadas pelo tsunami até a costa dos EUA. Vários outros barcos japoneses foram encontrados em terra desde o ano passado em Washington, Oregon e Califórnia, e um navio de pesca foi encontrado à deriva perto do Alasca mas foi afundado pela Guarda Costeira.
Dezenas de espécies exóticas e potencialmente invasoras - além das que pegaram carona a bordo do Sai-shou-maru - foram encontrados previamente ligado a dois grandes pedaços de piers que foram carregados, um até Oregon e outro até a costa de Washington, disse Hart.

(Editing by Steve Gorman, Cynthia Johnston and Patrick Graham)